sábado, 21 de abril de 2012

As Bandas Filarmónicas por José Luís Peixoto


O tempo passava. Hoje, para mim, esse é o grande mistério.
Antes, naquela idade, iluminado pela luz de outono que chegava depois da chuva e que atravessava as vidraças da Sociedade Filarmónica, eu estava sozinho numa sala com chão de madeira. Havia buzinadelas de trombones ou guinchos de clarinetes que chegavam de outras salas, atravessavam as paredes, mas eu estava no centro de uma calma importante, sentado diante de uma pauta, concentrado, a desenhar notas no ar com dois dedos. Era o solfejo a ondular-me na voz ainda de criança: dó-ó-ó-ó, ré-é-é-é.

Mais tarde, noutra estação, levava para casa uma caixa, parecia uma mala de viagem, e sentia-me solene ao atravessar as ruas com ela. A caixa ia cheia de responsabilidade. Num dia de especial cerimónia, o mestre da música tinha-se baixado até à minha altura para me olhar bem nos olhos e me dizer que, a partir daquele momento preciso, eu era o único responsável por aquele instrumento. No meu quarto, pousava a caixa sobre a colcha da cama feita, abria-lhe o fecho e admirava-me com o saxofone alto. A quantidade de chaves e botões impressionava. Apesar de fosco por anos de uso, apesar de algumas amolgadelas, o seu brilho continuava a ser imponente. Ao longe, trazido pelo vento, é quase certo que o sino da vila dava horas nesse instante.

A banda ensaiava no salão da Sociedade. Em matinés de domingo ou em terças-feiras de Carnaval, eu entrava nesse salão e ficava a ver os bailes, analisava os casais que dançavam e as mulheres que ficavam sentadas, com as malas no colo, bem vestidas, colares, alfinetes talvez de ouro, muito sérias, a seguirem cada passo das filhas. Depois de pagar bilhete, era também aí que entrava para ver filmes projetados num lençol. Nos ensaios da banda, os saxofones altos ficavam na fila da frente, ao centro. Tocávamos as mesmas músicas vezes e vezes, o mestre balançava à nossa frente, o seu corpo seguia a batuta. Então, podia interromper tudo de repente e cantar um pouco para explicar um detalhe ao bombardino: pó-pó-pópópópó. Ou, com frequência, podia irritar-se com as trompas. Perguntava: as trompas estão a dormir?

A flauta era tocada pela rapariga mais frágil. O bombo era tocado pelo rapaz mais forte. A ensaiar no salão ou a marcharmos fardados pelas ruas, o bombo era o coração de um gigante do qual todos fazíamos parte. De manhã cedo, em dia de festa, quando tocávamos arruadas na nossa terra ou em terras próximas, acertávamos o passo pelo bombo. Todos avançávamos com o pé direito ao mesmo tempo. Depois, ao mesmo tempo, todos com o pé esquerdo. Levávamos as partituras presas com molas da roupa a um pequeno retângulo de cartão que nos ficava à frente dos olhos. O mestre da banda seguia lá à frente, orgulhoso e rebiteso, a levar-nos por onde só ele sabia. No céu, estouravam foguetes.
Havia certos lugares, como a Junta ou a Casa do Povo, onde estavam à nossa espera. Então, parávamos e tocávamos uma marcha enquanto hasteavam a bandeira muito devagar. A seguir, quando o mestre dava ordem, saíamos da formação. Os instrumentos maiores eram pousados em algum lugar mais ou menos protegido, formavam uma imagem brilhante, e nós entrávamos em direção a uma mesa. Havia papo-secos cortados ao meio com fiambre ou queijo e havia fatias de bolo. Esperávamos à volta da mesa, a olhar. Depois de recebermos licença, estendíamos um copo de plástico que alguém enchia com sumol. Não havia barulho enquanto comíamos esses lanches. Havia os nossos olhos abertos por cima dos copos. Durante esse tempo, os rapazes que vinham atrás da banda pelas ruas, assomavam-se à porta e ficavam a espreitar. Esse era o momento, achávamos nós, em que tinham pena de não fazer parte da banda.

Nas procissões, tocávamos marchas muito lentas, pesadas, e avançávamos muito devagar. Aprendíamos a intensidade. Quando parávamos de tocar, a caixa continuava a marcar o passo baixinho, atravessávamos ruas cobertas de alecrim, e ouvíamos a voz do padre, amplificada por um microfone, alternada com um coro de viúvas. Além disso, em tardes de muito mais sol, subíamos a coretos de jardins com laranjeiras carregadas e, quando tocávamos algo que se afastasse das marchas e dos pasodobles, acreditávamos que estávamos a ser modernos.

De manhã, quando eu acordava, a minha mãe tinha a farda passada e dobrada à minha espera, a camisa pendurada nas costas de uma cadeira. Os sapatos engraxados.

E o tempo passava. Sem que me apercebesse, de repente, transformava-se na minha vida.

 José Luís Peixoto

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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Receção a D. Ximenes Belo

Esta tarde a nossa filarmónica saudou a presença de D. Ximenes Belo,  Prémio Nobel da Paz em Ferreira do Zêzere com uma marcha em frente ao Centro Cultural de Ferreira do Zêzere.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Boas Festas Pascais e Concerto de Primavera

Este fim de semana a nossa filarmónica inicia as Boas Festas Pascais em todas as igrejas e lares de idosos do nosso concelho.
Boas Festas Pascais: Dias 15, 22 e 29 de Abril.
Dia 29: Concerto às 16h00 na nossa sede na Frazoeira.



Filarmonias

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Participação no Filarmonias 2012

Músicos da nossa coletividade participaram mais uma vez no Filarmonias : Curso de Jovens Músicos, organizado pela Sociedade Filarmónica Ansianense de Santa Cecília de Ansião.
Este ano participaram 9 músicas e músicos que durante alguns dias das férias da Páscoa puderam aprender muito e também conviver com outros jovens que partilham a mesma paixão pela música. A Direção deliberou comparticipar nos custos deste curso por considerar que são uma mais-valia para a nossa filarmónica.





segunda-feira, 2 de abril de 2012

Via Sacra "Uma vela a Jesus" 2012

Centenas de peregrinos de toda a região cumpriram a tradicional Via Sacra do Domingo de Ramos nos cruzeiros de Dornes.
Nesta caminhada de fé de 4km em direção ao Santuário de Nossa Senhora do Pranto de Dornes, os peregrinos não tiveram receio da chuva, pelo contrário vieram agradecer a que caiu e pediram mais água que tanta falta tem feito.
Este ano a Via Sacra "Uma vela a Jesus" foi presidida pelo Sr. Padre João Paulo Fernandes e contou com a presença do Sr. Padre Manuel Pinto e pelo Sr. Diácono Francisco Claro que partilhou a organização com a Associação Recreativa Filarmónica Frazoeirense.
No mais expressivo evento religioso realizado em Ferreira do Zêzere para a nossa região conta com o apoio da Câmara Municipal e Juntas de Freguesia, todas as paróquias, leitores e catequese, Mr Artes Gráficas, Bombeiros e GNR de Ferreira do Zêzere.
No final da cerimónia foi apresentada a oração à Nossa Senhora do Pranto de Dornes numa pagela que poderá ser adquirida no Santuário.
A Associação Recreativa Filarmónica Frazoeirense e o Santuário de Nossa Senhora do Pranto de Dornes agradece à comunicação social, e a todas as entidades e pessoas que apoiaram na organização deste evento que se repetirá no Domingo de Ramos do próximo ano.
 














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